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ENTREVISTA COM TRAMPO


Trampo

Entrevista por: Jean Andrade       Fotos: Arquivo pessoal e Henry Saltz

Muito simples, com um grande talento, profissionalismo e inteligência, talvez seja por isso quando perguntam quem você conhece do graffiti em Porto Alegre? A resposta sempre é a mesma: o Trampo. Confira essa entrevista exclusiva para o Alvovirtual.com desse artista que tem influências do skate, hip hop e mantém a pura essência das ruas:

AV: Muita gente conhece você, sabe o que você faz, mas acredito que milhares de pessoas passam diariamente pelas ruas e olham suas pinturas e nem imaginam quem é o criador ou sua história, na real como começou isso tudo?

Trampo: Minha trajetória nesse mundo da arte urbana começou em meados de 1985 quando eu perambulava pelas ruas de porto alegre trabalhando de office boy. Nessa época o graffiti já tinha uma sutileza e era bem marcante. O que se via nas paredes era manifestações de grupos teatrais e bandas de rock que usavam essa mídia alternativa para marcar o nome nas paredes do bairro Bom Fim e Cidade Baixa (bairros de Porto Alegre). Esses traços feito por tinta spray aplicado no stencil me instigava e me deixou bem afim de fazer o mesmo, só não sabia como. Nessa época eu andava de skate e o bairro Bom Fim era um pólo cultural, e é bom lembrar que o manifesto do Sérgio José Toniolo já era bem visível nos muros da cidade.

A cultura dos desenhos dos shapes, mais o gosto pelas histórias em quadrinhos, me encantou essa arte. Nessa época a informação era bem "de canto" não existia revistas, livros, muito menos internet, sendo assim a referência era pequenas fotos que apareciam em revistas de skate. Tudo isso era bem valioso. Pois fez eu insistir em conquistar mais informação a respeito desse tipo de manifestação artística.

Anos mais tarde em 1997 eu tive em mãos a revista "Fiz Graffiti Attack" que era produzida em São Paulo que chegou pra mim pelo correio, costume que ainda tenho de enviar e receber correspondências. Daí tudo mudou pois já tinha referência de gírias e do comportamento universal do movimento. Mas confesso que reproduzir essas gírias e termos em inglês não era minha principal meta e sim buscar um estilo, uma forma de usar uma marca que fosse minha. Nessa época que eu dava meus primeiros riscos já tinha pessoas fazendo timidamente suas pinturas nos bairros de Porto Alegre.

 
Em ação no "Just Writing My Name" edição São Paulo 2007.

AV: Como você executa um trabalho na rua, isso geralmente vem pronto na cabeça ou num esboço numa idéia pré-editada?

Trampo: Depende do sentimento e do momento. Tem lugares que merece algo bem elaborado e projetado, mas tem lugares que é de forma espontânea, é chegar e fazer. Mesmo assim é tudo pré-definido. O artista urbano sempre tem seu caderninho e nele tem de tudo: traços, esboços, fotos e experiências de compartilhar desenhos coletivos. O costume de fazer desenhos e depois libertar ele na rua faz parte da brincadeira.

 

AV: Quais os materiais que você mais utiliza ou identifica seu trabalho?

Trampo: Ao longo do tempo eu tive a oportunidade de pintar com vários artistas dos mais variados seguimentos: artistas plásticos, muralistas, quadrinistas, fotógrafos, pixadores. Todas essa experiência me fez evoluir muito na questão de materiais. Hoje o que identifica meu trabalho é a cor preto e branco. Mais isso nunca me impede de fazer novas tentativas usando cores e novos traços. No momento atual a arte urbana é muito diversificada em se tratando de material, hoje em dia eu uso madeira pintada e prego na rua, faço cartaz, adesivo, uso de tudo um pouco.

AV: "Trampo" é uma gíria e quer dizer trabalho, porque desse apelido?

Trampo: Foi em 1986 quando eu andava de skate no "Quinta Avenida Center" que fica na Av. 24 de Outubro, onde era o point dos skatistas da época. Foi um dos donos da loja Pandemônio (que era um skateshop bem popular) que percebeu que eu era o único daquela galera que trabalhava. Daí veio o apelido "Trabalho", na hora eu não gostei, nunca assinei nada com esse apelido, quando alguém me chamava da "Trabalho" eu logo dizia que meu nome é Luis Flávio. Trampo me acompanha desde de 1988 quando eu decidi fazer um "tag" novo de lá pra cá é assim que o povo me chama. Mas confesso que o objetivo era apenas fazer uma assinatura fácil de executar.

 

AV: Olhei no seu blog, muitas fotos de placas de rua, algumas engraçadas, qual a ligação com a sua arte?

Trampo: A fotografia é minha maior paixão nos últimos tempos. Fotografo tudo principalmente as coisas que estão em nossa volta e ninguém percebe. Tenho uma série de fotografias de pessoas que usam o carrinho de super mercado como transporte pra recolher sua principal matéria-prima: o lixo seco. É uma coisa que me intriga, pois o carrinho de super é símbolo de consumo das pessoas que na maioria das vezes compra e descarta a embalagem na rua e não separa o lixo, mistura tudo. Daí vem esses agentes do meio ambiente e recolhem tudo para vender e tirar o seu sustento. Isso pra mim não é propriamente arte e sim um registro do cotidiano do trabalhador que vive na rua a margem da sociedade.

 
Graffiti no Trensurb em Porto Alegre

AV: Você já participou e participa de muitas coisas ligadas a arte urbana, algumas grandes outras tantas pequenas, se fosse dizer 3 trabalhos marcantes na sua trajetória, qual seriam e porquê?

Trampo: "Mural Global" foi um evento que aconteceu no ano 2000, participaram mais de 70 artistas Muralistas, pintaram muros em todos os cantos do mundo. Pra minha trajetória esse evento foi bem marcante pois foi nesse projeto que qualifiquei o meu traço e me deu segurança de pintar um qualquer suporte.

Fiz parte da turma que pintou o primeiro trem inteiro autorizado no mundo. Esse evento aconteceu aqui em Porto Alegre e foi organizado pela dupla paulista "Os Gêmeos", pintou também Coió, Nunca, Ise e a Nina. Esse evento teve o suporte do Instituto Trocando Idéia e da Trensurb.

Em Joinville acontece o "Encontro das Ruas" que é um evento dentro do festival de dança da cidade. Tive a oportunidade de pintar nas duas ultimas edições, mostra essa que reuniu pessoas do Brasil inteiro. É um autêntico evento da cultura Hip Hop. Esse ano acredito que vai ser novamente o ano de celebrar a cultura de rua e todos os seus elementos.

AV: Qual a sua opinião sobre o graffiti e a pichação?

Trampo: No meu conceito as duas coisas são a mesma. O que diferencia é a essência de cada indivíduo. Em todos os cantos do mundo graffiti é o ato de intervir no espaço público sem aviso, ou seja, uma intervenção, muitos podem não entender a inquietação de quem vive o cotidiano das ruas. Tenho consciência que é um manifesto invasivo porque muitas vezes não respeita o patrimônio alheio, é poluição visual declarada, é protesto e brincadeira lado a lado. Legal é deixar claro que cada grafiteiro tem um conceito, uma proposta de trabalho. A quem faça para se divertir e mudar o aspecto cinza da cidade, reunir outros adeptos e fazer um grande mural para se divertir outros tem o perfil terrorista que só pensa em fazer a sua assinatura ou nome da sua turma e pronto. No fundo todos querem deixar uma mensagem, um grito, o mais puro desabafo da sua existência.

 

AV: A prefeitura está usando tinta anti-pichação nos viadutos em Porto Alegre, isso influencia seu trabalho? O que você acha disso?

Trampo: Na real isso não atrapalha em nada pois tenho consciência do trabalho que desenvolvo nas ruas, mas acredito que pra nova geração a coisa complica um pouco pois a guarda municipal quer mesmo é deter qualquer indivíduo que esteja pintando na rua sem permissão, sei que é o ofício deles dar proteção e garantir a ordem mas temos que evoluir e perceber que os jovens costumam deixar suas caligrafias em toda parte e o melhor caminho é procurar entender o que passa na cabeça desses jovens. O reflexo desse entendimento está pixado nos muros. Com esse tipo de atitude dá pra perceber a busca da sua identidade, principais causadoras desse fenômeno da pichação.

Na minha opinião a repressão só piora a situação e que anti-pixação de verdade é qualificar a educação dos jovem procurando rever conceitos de arte por exemplo.

AV: Hoje a cultura urbana está na moda, é tendência mundial, na sua opinião onde fica a cultura hip hop no meio disso?

Trampo: A massificação das culturas sempre é duvidosa, se perde em qualidade para oferecer quantidade. Os grandes movimentos populares de anos atrás nunca se perderam pois sempre surge alguém pra regatar a verdadeira essência das coisas, por exemplo, o jazz e o blues nos EUA e aqui no Brasil a capoeira, tem na sua raiz a marginalidade e na exclusão das minorias, hoje todas elas tem seu espaço reconhecido na sociedade. Com a cultura Hip Hop não é diferente é bem comum escutar uma propaganda qualquer ao som do mais puro Rap ou abrir um jornal e ver um anúncio que oferece produtos de consumo com uma caligrafia graffiti. Irrita um pouco quando o mesmo jornal critica o graffiti mas acaba publicando o anúncios por uma boa quantia de dinheiro.

A grandes corporações querem se aproximar da juventude, por isso, rola a apropriação das culturas. Nem tudo é "falcatrua", tem grandes empresas que querem fazer essa relação de uma forma autêntica, investindo na originalidade e dando liberdade para esses artistas urbanos.

Pra mim a cultura Hip Hop é comportamento, ela sempre vai existir independente das tendências. A origem da história sempre prevalece.

AV: Qual a diferença entre street art e graffiti?

Trampo: Street Art pra mim é o "tiozinho" tocando violão com uma folha na boca em praça pública. Esse conceito é muito usado nos dias de hoje pra dar nome as manifestações que aparecem na rua das mais variadas formas: adesivos, cartazes, stencil ou esculturas, tem de tudo. Mais não gosto de separar graffiti de street art pois é a mesma coisa, a confusão que rola é que o estilo de graffiti de Nova York com suas letras e caligrafias acabou sendo classificada assim.

AV: O que podemos esperar do Trampo, o que você anda desenvolvendo?

Trampo: Minha principal meta é dar chance ao meu trabalho artístico, criar e pintar sem compromisso. Simplesmente fazer arte.

 

AV: Alguma dica pra quem quer começar a pintar ou está procurando se especializar?

Trampo: Sou do tempo em que a informação era precária, não tinha livros e revistas e muito menos internet, acredito que foi assim que busquei a minha originalidade, as minhas idéias, errando e acertando ao mesmo tempo. Percebo que o excesso de informação, muitas vezes sem qualidade, deixa as pessoas achando que sabem tudo, do movimento às tendências. Mas tenho certeza que de nada vale a informação se tu não tem humildade de aprender de verdade na vivência do dia-a-dia. Buscar as mais variadas referências pois o graffiti tradicional está por aí a mais de 30 anos. Já é tempo de recriar isso tudo de uma forma pessoal e natural. Temos que abrir a mente e olhar ao redor e perceber que tem muita coisa pra acrescentar a nossa própria natureza.

AV: Algum recado para finalizar, o espaço é seu.

Trampo: É o momento de se posicionar e procurar fazer algo de bom para o nosso cotidiano. Chega de violência, chega de individualismo. Mexa-se! Exercite a sua mente para um mundo melhor.

Mais sobre o Trampo no link: www.myspace.com/trampone

Redação Alvo

 
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